Em 2024, o Brasil criou cinco novos unicórnios — startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Não foi um ano excepcional. Foi o quinto ano consecutivo com pelo menos quatro unicórnios novos. O ecossistema de startups brasileiro não é mais uma promessa. É uma realidade que está sendo estudada por investidores, governos e pesquisadores do mundo inteiro.
Mas o que torna o ecossistema brasileiro diferente? E por que, apesar do crescimento impressionante, ainda há uma taxa de mortalidade de startups que chega a 74% nos primeiros cinco anos?
Conversamos com 20 fundadores de startups brasileiras que captaram mais de US$ 10 milhões. A resposta mais comum para o que diferencia o Brasil foi surpreendente: os problemas.
"O Brasil tem problemas que países desenvolvidos não têm — ou já resolveram há décadas. Isso é uma vantagem competitiva enorme para quem quer construir tecnologia que resolve problemas reais", disse a fundadora de uma fintech de crédito para trabalhadores informais.
"Aqui você não precisa inventar problema. O problema está na sua frente. O desafio é construir a solução que funciona dentro das nossas restrições — de infraestrutura, de regulação, de poder aquisitivo." — Fundadora de startup de healthtech, São Paulo
Dois fatores regulatórios foram citados por quase todos os fundadores como transformadores do ecossistema: o PIX e o Open Finance. O PIX, lançado pelo Banco Central em 2020, criou uma infraestrutura de pagamentos instantâneos que reduziu drasticamente o custo de transação e abriu espaço para dezenas de novos modelos de negócio.
O Open Finance, que obriga bancos a compartilhar dados de clientes (com consentimento) com terceiros, criou uma camada de dados que está alimentando uma nova geração de fintechs de crédito, investimento e seguros.
Apesar do crescimento, há gargalos que persistem. O acesso a capital de risco ainda é concentrado em São Paulo e Rio de Janeiro — mais de 80% dos investimentos vão para startups dessas duas cidades. A burocracia para abrir e fechar empresas ainda é um obstáculo. E a falta de talentos técnicos sênior é citada como o principal problema de crescimento por 67% dos fundadores que entrevistamos.